sábado, 7 de novembro de 2009

Menina Lilás

Morava num livro,
cercada de letras por todos os poros.
Não era suficiente.
Escreveu janela,
das folhas fez pássaros.
Choveu.
Dicionário em mãos, roubou guarda-chuva.
Apagou.
Escreveu ponta da língua pra fora.
Assim é bem mais, pensou.
Bebeu da água.
Comeu do pão.
Adormeceu sem planejar minuciosamente o passo seguinte,
pois liberdade é mil precipícios na barriga
e ela não tem medo.
Só de espíritos ou certas marcas de inseto.
E de pessoas excessivamente felizes.
Quando chora fica com o coração desmaiado por longos dias,
mas como é adorável!
Como é adorável essa menina
de nome sem rima
que não coube em nenhuma canção.
Esse poema é pra celebrar sua esquisitice.
É também um brigadeiro de amor
(seja lá o que isso for).

Esse ano descobri sofrimentos e felicidades em todos os graus.
Modifique-me de tantas maneiras que cresci, diminuí e comi diversos bolos fantásticos de terras maravilhosas. Não é síndrome de Alice, é a vida em seu sentido mais arrebatador.
Pra variar, teve uma paixão doída, uma briga e uma reconciliação, cabeçada na parede, um beijo, tudo regado com as melhores trilhas de cinema.
Lembrei e fui lembrada por quem mais queria. É isso que importa nos meus finais. Aqueles que eu amo estavam aqui, para o que desse e viesse; e veio de tudo, com tudo, pra tudo ficar melhor.
Ganhei crianças ao meu redor, brinquei, troquei cartas, dancei. Fiz um filme! Tirei o siso, peguei piolho, caí de moto, mas tá valendo.

É fantástica magia que o tempo dá para as coisas.
Tudo que não sarava nunca, sarou.
Por isso, dispenso o final feliz; prefiro começos e meios inventados todo dia, com amor.

E “sem amor eu nada seria”, só para constar.


Um beijo.
Obrigada a todos que fizeram parte disso.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Quando termino uma semana assim, feito essa, pressinto que estou exatamente onde deveria estar.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Às crianças, com carinho

Quão difícil é aceitar que eles sabem mais que eu.
Tão adulta, tão esperta, tão vivida, tão correta...
Eles sabem mais que eu.
Eles jogam o corpo no ar
sem redes de salvação.
Eu me esqueci como é isso,
essa coisa de viver e pronto.
Crio arrogantes explicações sobre tudo.
Subo em banquinhos para discursar.
Olho de cima, de lado, faço cara feia.
Eles sabem mais que eu.
Comem o necessário, falam na cara, gritam quando dói.
E dói.
Choram quando é preciso e melhoram quando é preciso.
Sem guardar o que não presta,
sem tempo pra perder tempo.
Eles sabem bem mais que eu
porque têm paciência com meus atos.
Companheiros da minha longa aprendizagem
pela estrada da evolução
(que cabem direitinho nos meus abraços).

domingo, 25 de outubro de 2009

acho que nem era pra ser mesmo não.

mas é que eu queria
eu quero
e vou querer amanhã cedo (se estiver viva).


certeza isso.
certeza!

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

A lista

Ah!
Como ia ser bonito a gente...
Eu aprendia cozinhar,
tirava a bicicleta do quartinho.
Como ia ser bom.
Perdia essa cisma de animais domésticos, por você.
Minha grosseria.
Uma ou outra mania, talvez.
Era uma lista de promessas debaixo do meu travesseiro.
Umas cinquenta páginas, com letra miúda!

É que o amor desperta essas vontades absurdas
na gente.
E a gente quebra a cara,

mas sempre refaz a lista.

sábado, 17 de outubro de 2009

A beleza do ofício

Trabalho para aprender,
porque as crianças vão comigo.
Elas perdoam minha visão turva sobre a vida,
e tem paciência com meus defeitos.

Tenho o melhor emprego do mundo,
mas nunca contei a ninguém:
ganho para ver humanos crescerem,
assim, bem perto.
Esse é o milagre mais bonito dessa Terra.

Carrego minha voz e meu colo.
Eles são suficientes.
Por isso, sou habituada a tantos mimos infantis
e tornei-me carinhosa até com as pedras.

Nunca fui nada.
Nunca tive nada.
Hoje sou jardim inteiro,
pois elas plantam o melhor em mim,
dividindo, pacientemente, o mistério das coisas.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Blog: curtos espaços de tempo
feitos para gritar.

Meu amor continua bobo e infantil,
mas não é vergonha não.
Meu amor é a melhor coisa que eu sei fazer.

Talvez a única.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Nada não.

Ela era minha menina, só minha.
Não é mais não.
Eu queria ela bem perto,
ela fugia.
Meus carinhos sem medida
machucavam até a mim.
Eu fazia tudo sonho,
ela vinha e desfazia.
Coitadinha da menina,
não sabia, não sabia.
Desenhava ela no ar,
arrumava o vestidinho.
Ela sofria.
Eu criei o céu perfeito,
porém não foi direito obrigá-la a morar lá.
Quando olhei, estava só.
Só podia ser assim.
Não morreu, não brigamos, nada não.

E era melhor se fosse tudo.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Toda tarde toda

Quando me perguntam como estou
já não abro despudoramente as janelas.
Explicar minhas voltas é em vão.
Devido à insistência, eu peco.
Invento romances, proposta de casório e a esperança de muitos muitos filhos,
(ou prometo perder vida em trabalho aborrecido).

Tenho curva,
perdoem as linhas retas.

Existem poucos mortais interessantes
para dialogar nas tardes vazias.
E também nas tardes cheias.

domingo, 27 de setembro de 2009

Mil perdões

O fato é que somam-se cansaço, resfriado e solidão.
Não há o que escrever quando interior e exterior se partem.
Podia recorrer às mazelas sentimentais,
reclamando o amor que não vem,
o preço do leite
- vocês viram o preço do leite?
mas teria de parar para assoar o nariz nas toalhas brancas do bom senso.
Estou cansada de um cansaço
que não tem começo e nem fim.
Peço que orem aos seus Deuses do Olimpo,
porque 'fim do mundo' é o exílio dos poetas.

sábado, 26 de setembro de 2009

Por ser tão excesso, preciso cortar... Mas prefiro assim: me transbordo para festejar o mistério.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Para dizer, mas não disse.

Queria que ela soubesse
que cruzo em pensamento a distância toda,
todo dia,
porque gosto muito dela.

Veio descalça,
enraizou e nasceu flor bonita.
Teve desejos de estrada,
desde então não brotou mais nada.

É estranho, confuso e avesso,
mas arrisco,
porque são dela
as tardes na calçada vendo o sol desmaiar.

Inevitável foi olhar bem perto.
Minha paixão de criança
pelo inseto.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Miséria dos tempos ou a morte da poesia.

E se de repente for assim:
imaginação não move uma agulha de onde
a razão colocar essa maldita agulha.

céu for apenas céu
lua cuspir São Jorge
poeira tornar-se pó


Sem drama, sem dor,
nenhuma poesia.

E se de repente for assim?

paraíso queimar em sol

astro virar satélite
poeira cobrindo tudo
sem comiseração.

E se de repente foi em vão?


suspiro apagar a luz
cinzenta rasgando chão
poeira assentar e fim.


E se de repente for pra mim?

Conviver é ver filme que não quer.
Ouvir quando quer falar.
Aturar apontamentos
nas coisas mais sagradas.



Conviver com gente chata, é claro.

O individualismo é a coisa mais coletiva dos nossos tempos.
- Quanto mais me encontro, mais me encontro sozinha.

Meus vinte e poucos,
tão cansados, tão cansados.

Eu quero andar descalça,

despenteada, cantando o que não existe.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Senhora, nobre senhora.

Sou muito mulher do meu tempo.
Carrego o mistério da vida
e das guerreiras que me antecederam o poder de ter ou não essa vida.
Não preciso casar pra ser gente,
nem amarrar meus pés a corrente alguma que não seja do meu agrado.
Prefiro aprisionar-me aos livros,
subjugar-me aos meus.
Se costuro é para trançar destinos.
Se cozinho, feitiços num solitário ritual.
Nada pode me prender
que não amor.

Sem feminismo,
necessito libertar desejos,
pois arte está no que penso ou sinto com espaço;
e respeito é território duramente conquistado.

Ser anjo;
ser puta;
estar várias é milagre feminino.

De cabeça erguida, grito alto:
"sou quem quiser,
não o que querem,
por conceber das minhas entranhas
o próprio poder da escolha.
Humana, falível, imperfeita e deliciosamente dona de mim."

Sou nobre senhora do meu tempo.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Quando não se tem mais nada a dizer
é realmente algo preocupante.

domingo, 26 de julho de 2009

imagem por: Arlene Graston

Adoro mar, mas não sei nadar até hoje.
Quando pequena, meu pai me jogou na piscina por desejar meus genes idênticos aos dele - ótimo nadador desde sempre - não são.
Hoje, águas fascinam e dão tontura, numa espécie de atração com repulsa, assim como sinto coisas desconhecidas.
Pessoas também atraem e dão enjoo.

Preciso estar "dois"
- com quem veja desenhos nas nuvens.

Matemática das coisas tristes.

Deixei recado no portão:
“Você anda ocupado demais
para pequenas delicadezas.”
Preciso derrubar sorvete na sua camisa e rir.
Saber histórias secretas
do mundo (que só existe) depois de você.
Impossível dividir monólogo
sem valsa.

Dois pra lá, dois pra cá...
- Dois.

terça-feira, 21 de julho de 2009

Além do céu.

Esse campo tem horizontes maiores,
não menos distantes,
mais bonitos talvez.
Sou canções para chegar lá.
Vou escorregando de mãos dadas com o sonho
de ser grande.
Passageira, do ventre aos pés,
mistério solitário
sob nuvens do universo.
Não quero menos que o mundo,
porque sou mundo também.
Por querer tudo, tudo sou eu.
Ciranda nos braços da roda
do amor.
Entre fardo e luz, criatura perdida,
que salta abismos para voltar


e volta.

 




E ELA VIVEU FELIZ PARA SEMPRE...